Meu amor pela educação – com Caio Dib

Conhecer o Caio foi inspirador. O seu romance com a educação fez ele largar tudo e partir Brasil a fora em busca de novas formas de educação. Hoje, ele encontrou um nome para aquilo que desde cedo acreditava ser a melhor forma de saber se as coisas funcionam ou não: ouvindo e observando as pessoas. Caio trabalha com Design de Serviços voltado para educação, mas era o que ele já fazia antes de saber o “nome técnico” da sua área de atuação.

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Com mãe mestre e pai doutor, a educação esteve no seu dia-a-dia de forma natural desde pequeno, fosse nos livros ou nas conversas. Ele teve a oportunidade de viajar nas férias, conhecer lugares diferentes e enriquecer sua cultura. No seu mundo, todos tinham muitos livros em casa, até que ele percebeu que vivia numa bolha e que era privilegiado quando se abriu a conhecer outras realidades.

Trabalhando em empresas de educação e criando soluções para professores, encontrou uma barreira: os professores não gostavam da plataforma criada. Quando foram analisar, eles não conseguiam fazer o login. “Criamos algo onde o usuário não consegue executar o básico? Será que não testamos com ninguém?”. Teste com usuário não era comum na época. Ainda na faculdade, Caio foi convidado para trabalhar com Marketing Digital e, acreditando que o problema estava no setor de educação, se viu em um mundo diferente, de publicidade, entretanto, ainda assim, o cliente não era ouvido. Ele também percebeu isso nos produtos e viu que era um problema do mercado.

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Caio chegou a conclusão de que a solução seria estar na rua, então pegou um atlas, olhou as cidades que conhecia, as históricas, as que tinham projetos de educação e as com nomes engraçados. Contou sobre a ideia de viajar pelo Brasil em busca de boas práticas de educação para sua mãe e ela disse “legal”. Ele percebeu que se a mãe respondeu isso, ele precisava de uma narrativa melhor para a sua história. Essa aventura começou em 2013 e, naquela época, a rede era pouco conectada e os professores se sentiam sozinhos. O Caindo no Brasil surgiu com a intenção de reunir essas pessoas e saber com quem falar e quem conhecer. Essa viagem rendeu muitos frutos, livros, pessoas, palestras, histórias e experiência.

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Quando Caio decidiu fazer a viagem, ele determinou um budget diário, que era de 100 reais por dia para todas as suas despesas. A estratégia era um bom café da manhã no hostel, um bom almoço e uma cenoura na janta. Sim, uma cenoura porque custava poucos centavos. Ele andava muito a pé, evitava pegar transportes e revezava entre uma ou duas noites na cidade e outra no ônibus. A expectativa era viajar durante três meses, mas ele percebeu que havia muita coisa para ver e ficou cinco meses na estrada. Em um ônibus, cansado de viajar, um senhor insistia em perguntar se aquela era a poltrona 18 e queria conversar, enquanto Caio estava com fone. Ali ele lembrou que estava viajando para conhecer histórias e estava perdendo aquela. Tirou o fone e conheceu o seu Luiz, que perguntava nº da poltrona por que era analfabeto. Seu Luiz nunca pisou numa escola, pois ficava a duas horas de distância da sua casa. Enquanto ele falava, Caio percebeu que dizia inúmeras vezes “você deve saber disso, porque você estudou”, coisas como o preço da madeira, que seu Luiz sabia por causa da sua experiência e que o Caio nunca estudou. Mesmo analfabeto, ele sabia o valor da educação e ajudou sua filha a se formar como técnica de segurança. Ali estava uma linda história que quase foi perdida pelo cansaço. Era hora de voltar para São Paulo e investir em outros projetos. As viagens continuaram por mais dois anos. Duas semanas por mês, ele estava em algum evento conhecendo novas pessoas e novos projetos.

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Em 2012, o Design Thinking emergiu no Brasil e a ideia de criar junto com o usuário começou a se popularizar. Em 2016, através de uma rede de amigos, Caio começou a trabalhar na Tellus desenvolvendo um relatório sobre a formação de professores. Ele fez o estudo e viu que aquilo fazia sentido para a sua vida profissional. Dois meses depois, surgiu uma nova oportunidade na Tellus para sistematizar boas práticas em uma escola rural e foi nessa empresa que ele fez outros projetos. Durante esses anos, ele conheceu o Design de Serviços e viu que existiam outros modelos que poderiam fazer com que governos e empresas pudessem melhorar seus serviços. Lá, ainda fez projetos em outras áreas, como na saúde, para conhecer outros mundos. Então, uma nova oportunidade surgiu. Caio foi para a AMcom, que atua diretamente nas Secretarias, trazendo soluções tecnológicas.

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Quanto ao Caindo no Brasil, em 2018, o modelo não era muito sustentável e, após uma pesquisa, ele viu que as pessoas procuravam pelo nome Caio Dib. Com a necessidade de mudar a forma como as notícias eram compartilhadas, ele passou a divulgar informações através de newsletters semanais e viu que o modelo se tornou mais efetivo. Com o tempo, percebeu que precisava fazer menos coisas, mas coisas mais potentes.

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Caio tem orgulho da sua história, que é fruto das experiências que viveu e das pessoas que conheceu e que segue conhecendo! Duas vezes por semana ele conversa com alguém que não conhece e esse exercício parte de pessoas que querem conhecê-lo e dele, que quer conhecer mais pessoas. Como sua amiga Esther diz “Caio, você tem muitas ideias, todo dia você diz ‘estava conversando com uma pessoa ontem e tive uma ideia’”. Essas conversas, muitas vezes respondem um desafio que ele está vivendo, mas nem sempre foi assim.

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Ele conta que até a 8ª série era muito tímido e tinha a língua presa, tendo que fazer cirurgia para corrigir. Caio era a pessoa que atravessava a rua para não falar com as pessoas. No Ensino Médio, a escola tinha aula de reforço a tarde e uma fila todos os dias. Em 2006, sem smartphone, o que se fazia nas filas? Conversava com pessoas. Ali ele começou a conhecer muita gente e viu que todo mundo tinha uma história para contar sobre uma realidade diferente. Caio é fascinado por isso (te entendo, Caio!) e de vez em quando vai ao bar sozinho para observar as pessoas interagindo e conversando. Tudo está na narrativa.

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Apesar do eterno romance com a educação, Caio não tem mais uma visão romântica sobre o assunto. Com a sua experiência, viu que a educação é um dos pilares. A educação ainda precisa transformar o lugar onde essas pessoas estão, mas todos ainda precisam de moradia e saneamento básico. Muitas escolas ainda têm a merendeira como pessoa mais importante, pois é o lugar onde se oferece quatro refeições por dia. Precisamos de mais educação, mas não só disso. Outras causas precisam ser alcançadas em paralelo. Como podemos facilitar a vida daqueles que estudam? Ele lembra de um colega da faculdade que conseguiu uma bolsa na faculdade.  Ele corria todos os dias para pegar o ônibus e nunca almoçava com os amigos porque não tinha dinheiro. E aqueles que trabalham e estudam? São mil desafios e cada um de nós podemos fazer pequenas ações para melhorar esse cenário, seja pagando um almoço para um amigo, oferecendo a casa por um dia, dando uma carona ou como for possível.

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Entre muitas iniciativas, ele lembra de um projeto em Petencoste, no Ceará, que trabalhava com pequenos grupos e um facilitador, onde este dava uma introdução e os estudantes aprendiam entre si. Essa iniciativa surgiu de um professor universitário que teve acesso a universidade graças a uma roda de estudos quando era pobre. Ele quis retribuir à sua cidade chamando alunos para terminarem os estudos através da aprendizagem coletiva e, desde então, mais de 500 pessoas entraram na universidade e o projeto tornou-se política pública.

A educação está na vida do Caio há muitos anos. Seja viajando pelo Brasil, num trabalho informal ou formal. Em um projeto e em uma conversa. De forma inovadora, tecnológica, tradicional, ela está ali, sempre presente. Que esta história nos inspire a colocar a educação na nossa realidade, em grandes projetos ou em pequenas ações.

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